Adeus solidão: Receita para gatos superdependentes 2


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Adeus solidão: Receita para gatos superdependentesVocê chega do trabalho e enquanto está abrindo a porta o vizinho avisa: “O gatinho está miando muito. Mia bem alto e desesperadamente quando você vai para o trabalho“. Após algumas desculpas, ao entrar em casa você nota a vasilha sanitária não foi utilizada, os potes de água e comida não foram mexidos e a partir de agora uma sombra a mais te acompanha. O que inicialmente parecia um vínculo afetivo, agora está tornando-se um desconforto aflitivo. O gatão te espera para comer, beber, ir ao banheiro e também para se divertir. Esperar pelo companheiro humano pode ser uma tarefa tranquila para alguns gatos, mas não para outros. Essa história, baseada em fatos reais, mostra uma situação de desajuste e merece sempre atenção de profissionais e amantes de felinos. Ficar sozinho em casa parece bastante desconfortável para alguns gatos. O que sempre escuto é: ele é muito grudado em mim, tão bonitinho, me espera para jantar.

Gatos: seres sociais

A imagem do gato solitário nos desenhos, filmes e imaginário coletivo não representa a realidade. Eles são animais que possuem características comportamentais bastante sociais. Estão preparados e dispostos a estabelecerem vínculos importantes, complexos e muito duradouros sempre. O gato é perdidamente apaixonado pelo seu companheiro humano. Pode acreditar nisso! A comparação com a exuberância expressiva dos comportamentos caninos já estabelecidos no subconsciente de muitas pessoas atrapalha a forma como interpretamos os sinais de amizade dos felinos.

Uma vez que estabelecem vínculos importantes com os humanos (os gateiros não têm dúvida disso), muitos bichanos exibem sinais de desconforto quando são deixados sozinhos, mesmo que durante curtos espaços de tempo. Esse grupo de elementos comportamentais é denominado “ansiedade de separação“. Ou seja, uma questão comportamental tradicionalmente canina está agora sendo diagnosticada em gatos com maior frequência. Não há uma estatística sendo feita, embora os registros da clínica sejam todos arquivados, mas os casos são muitos, uma vez por semana temos, em média, um animal sendo relacionado aos sintomas supracitados. Outra situação é a identificação e suspeita de ansiedade de separação dentro de outras queixas clínicas.

Estamos entendendo a forma com que os gatos estão estabelecendo vínculos com os humanos. Essa realidade é nova. Os lares estão menores e as pessoas trabalhando mais. Os felinos vivem em ambientes pouco estimulantes e o principal entretenimento deles parte dos tutores, que precisam sair para trabalhar, assim temos o aumento do problema comportamental. Não acontecia antes provavelmente porque gatos eram mantidos mais livres e tinham vidas mais independentes. O que fazer, então? Deixar o animal livre e não levá-lo para morar com a gente? Não! Basta enriquecer o ambiente e não deixar o bichano tão solitário! Mas ainda precisamos de mais respostas científicas.

Atenção ao seu bichano

Não existem muitas informações que permitam uma compreensão dos mecanismos que envolvem a ansiedade de separação em gatos, mas algumas situações parecem ter sentido e merecem atenção dos gateiros de plantão. Hoje preocupados com as relações entre gatos e humanos de um ponto de vista diferente. Os vínculos precisam ser intensos, mas a independência não pode ser deixada de lado e precisa ser estimulada. Gatos que realizam atividades apenas quando são motivados pela presença de seus responsáveis parecem mais predispostos ao transtorno da separação.

Não observamos apenas as vocalizações (miados altos), mas também micção e defecação em locais inadequados. Será que seu bichano tem essa atitude para tentar facilitar seu retorno para a casa? Caso você esteja demorando, ele deve achar que você está perdido e um cheiro forte ou um miado alto pode ajudar.

Medicamentos e abordagens comportamentais mais individualizadas poderão ser obtidos em consultas especializadas. O importante é entender que mesmo nossos amados gatos necessitam de graus de independência para estabelecerem vínculos de forma saudável. Se alguém disser para você que gatos gostam mesmo das casas onde vivem e não dos humanos, avise: gostam tanto dos humanos que eventualmente precisam de ajuda.

♣ Carlos Gabriel Dias, médico veterinário especialista em felinos da clínica CAT.,
Pulo do Gato, ed 87


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